23/07/16

Eu, Assassino - Antonio Altarriba e Keko


My rating: 5 of 5 stars

Do mesmo autor, li, há algumas semanas, "A Arte de Voar". Gostei muito, mas gostei ainda mais deste! Daria 6*, se fosse possível :)

Eu, Assassino

"Eu, Assassino" conta a estória de Enrique Rodriguez, professor universitário de História da Arte, no País Basco (há reflexões sobre Arte; há referências à ETA e aos seus ataques terroristas… a morte também convive com a política!). Defensor de teorias controversas relacionadas com as obras dos grandes mestres espanhóis, é, ao mesmo tempo, um assassino em série. Os homicídios que leva a cabo, de forma convicta e metódica, são encarados como se de uma arte se tratasse (dá, a cada um dos seus assassínios, um nome/título, como se fosse um quadro).

Encontramos aqui “uma extensa reflexão sobre as atitudes do ser humano, da paixão à inveja, do valor das relações ao seu aproveitamento, ao ritmo do progressivo isolamento de Rodriguez em torno de si próprio e da sua pulsão assassina, com a pintura clássica espanhola e os meios académicos como pano de fundo.
Obra densa e complexa, provocadora e estimulante, traçada num preto e branco fortemente contrastante, rasgado cirurgicamente em detalhes a vermelho vivo (…).” (retirado de: http://asleiturasdopedro.blogspot.pt/... )

Podemos ver o book trailer em https://vimeo.com/115992905


Sobre os autores:

Antonio Altarriba é escritor, ensaísta e, acima de tudo, argumentista reputado, além de catedrático de literatura francesa da Universidade do País Basco, tendo obtido, em Espanha, o Premio Nacional del Comic em 2010 com A Arte de Voar, um relato baseado na vida do próprio pai, o qual percorre um século da história de Espanha. Tanto como autor ou como divulgador, Antonio Altarriba é uma figura central na história da banda desenhada espanhola. O seu trabalho mais recente, a publicar em 2016, em Espanha, é La Madre Manca, uma obra dedicada à figura da sua mãe.

Sob o pseudónimo Keko esconde-se José Antonio Godoy, artista madrileno que deu os seus primeiros passos em revistas como Madriz ou Métal Hurlant. Discípulo de Will Eisner e de Alberto Breccia, este mestre do preto e branco soube criar um estilo próprio caracterizado  por um traço conciso e o uso do negro para criar diferentes atmosferas. Em 2002 publica 4 Botas, o qual recebeu o prémio de Melhor Obra no XXI Salão Internacional de Banda Desenhada de Barcelona. Divide o seu trabalho artístico entre a BD, a ilustração e a publicidade, com publicações em El PaísEl MundoABC, Rolling Stone ou FHM.

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21/07/16

Cidades da Noite Vermelha - William S. Burroughs



Cidades da Noite Vermelha

Cidades da Noite Vermelha é um romance que mistura, numa linguagem direta, visceral e crua, temas tão polémicos (e recorrentes no autor) como sexo, drogas, exploração sexual, violência.

Neste livro cruzam-se duas estórias: uma, passada no séc. XVIII,  que narra a viagem de navio que leva os seus tripulantes a um novo mundo, regido pelos “Artigos” de James Mission (que antecederam em 100 anos os princípios da Revolução Francesa). A outra decorre no séc. XX, quando um detetive privado tenta descobrir o que está por detrás da morte de um jovem assassinado.

No entanto, o livro é constituído por outras estórias e outras personagens, que surgem numa espécie de zapping narrativo no qual, por vezes, é difícil perceber em que estória estamos.
Não é um livro “com princípio, meio e fim” e com uma sequência lógica. Por vezes, dei por mim a perguntar: “Mas quem é esta personagem? A que história pertence? De onde veio?”.

A escrita de Burroughs é pouco convencional. Ainda que encontremos uma grande criatividade, o facto de não contar uma história linearmente (por contrário, os capítulos que vamos lendo parecem nem sequer ter ligação entre si) só baralha quem tenta desbravar esta escrita densa e, por vezes, sem sentido.

É um livro diferente na estrutura narrativa, pois incorpora "variadíssimos níveis de linguagem e diferentes meios de expressão artística" (vd sinopse).

Para se ler com tempo e com concentração.

My rating: 4 of 5 stars

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17/07/16

Um Cisne Selvagem e Outros Contos - Michael Cunningham

Um Cisne Selvagem e outros contos
My rating: 4 of 5 stars

O autor de As Horas e Uma Casa no Fim do Mundo escreveu esta coletânea de contos que são reinvenções de contos tradicionais transformados em fábulas com um aroma de modernidade.
À medida que vamos lendo as estórias, vamos reconhecendo as personagens e a fantasia que conhecemos na infância: a Bela Adormecida, a Bela e o Monstro, João e o Pé de Feijão, o Soldadinho de Chumbo, os anões e as bruxas. Porém, se nos clássicos as estruturas narrativas são estanques (e os bons perfeitamente distinguíveis dos maus, tal como os finais sempre felizes), nestas recriações de Cunningham há sempre surpresas - incluindo, a fechar, um único final feliz, o mais bizarro porque destoa do tom dominante, sombrio e quase realista dos outros contos.

Como escreveu o Independent, na maioria destas versões não há grandes conclusões nem soluções mágicas que tudo curam. De certa forma, o que Cunningham faz nestas histórias que quase sempre encerram uma lição moral (embora nunca uma moral redentora, mas com frequência uma moral amarga e até relativamente “amoral”) é dar-lhes uma coloração mais lúcida e realista, ou seja, mais pessimista e também mais verdadeira, subvertendo o clássico remate “e viveram felizes para sempre”, na consciência de que a vida é difícil e todos, sem exceção, têm as suas “dívidas cármicas” (digamos assim) para saldar e resolver, não estando ninguém na verdade autorizado a pensar que tem o direito a ter uma vida simples e fácil.

É a originalidade na maneira de recontar as histórias (ou de as continuar, como sucede com Branca de Neve, que se entedia com o seu príncipe fetichista) que faz da leitura uma experiência divertida e estimulante - seja quando o autor se centra nos heróis, seja quando explora as razões e emoções de um vilão. Aqui, todos são simplesmente humanos - até a bruxa da Casinha de Doces -, cujas vidas difíceis (tramadas, como as nossas) quase justificam as suas maldades.

E há, ainda, as ilustrações de Yuko Shimizu.

5* para imaginação do autor e para a sua mestria literária.

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10/07/16

O Jogo das Andorinhas: Morrer, Partir, Retomar - Zeina Abirached

My rating: 5 of 5 stars

O Jogo das Andorinhas: Morrer, Partir, Retornar

Zeina Abirached nasceu no Líbano, em 1981. Viveu os primeiros dez anos da sua vida em Beirute, uma cidade debaixo de fogo, destruída por uma sangrenta guerra civil.

"A Dança das Andorinhas" retrata uma noite na vida das famílias que habitam um prédio na zona este de Beirute, perto da linha divisória da cidade: de um lado, as tropas muçulmanas, apoiadas pela Síria; do outro, as milícias cristãs, apoiadas por Israel.
Com grande sensibilidade e humor, a autora evidencia o contraste entre a realidade exterior hostil de uma cidade destruída pela guerra e a intimidade protetora do espaço familiar, mesmo que esse espaço esteja confinado ao átrio de um prédio onde os inquilino se reúnem sempre que a cidade é fustigada pelas bombas.
Um relato da realidade de uma cidade devastada pela guerra e das pessoas que tentam (sobre)viver e levar uma vida tanto quanto possível normal, contado com grande originalidade gráfica, ternura e humor.

Há quem estabeleça um paralelo entre o trabalho de Z. Abirached e o de Mariane Satrapi, autora de “Persépolis”. Esta última, no entanto, tal como é dito no prefácio de João Miguel Lameiras, “ (…) tem um âmbito mais alargado, traçando o destino do Irão, desde a queda do Xá e o triunfo da Revolução Iraniana (…). Já Reina Abirached limita o âmbito da sua história à sua rua, cortada ao meio pela zona de demarcação, e ao prédio onde vivia (…).
Também em termos gráficos, as diferenças são óbvias, apesar de ambas trabalharem o preto e branco. (…) Zeina A. utiliza a sua experiência do design para criar um estilo sintético, altamente estilizado, em que a influência da arte bizantina se cruza com os teatros de sombras chinesas, aspeto que a representação bidimensional e a repetição hipnótica dos cenários acentua. Mas o ponto alto do trabalho de Z.Abirached é o seu sentido narrativo e de planificação, que lhe permite controlar com mestria o tempo da narrativa, através de soluções tão simples como inesperadas”.